


Leia O Horla, de Guy de Maupassant, em tradução contemporânea de Eliana Pacco: português claro e fluido, fiel à força do original. Em forma de diário, um homem sente uma presença invisível invadir sua casa, beber sua água à noite e tomar aos poucos o controle de sua mente. Seria um ser sobrenatural, vindo para suceder a humanidade, ou o próprio narrador enlouquecendo? Uma obra-prima do terror psicológico que inspirou Lovecraft.
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25 de maio
Nada mudou! Meu estado, realmente, é bizarro. À medida que a noite se aproxima, uma inquietação incompreensível me invade, como se a noite escondesse uma ameaça terrível para mim. Janto rapidamente, depois tento ler; mas as palavras não fazem sentido; mal consigo distinguir as letras.
Caminho de um lado para o outro na minha sala, sob a opressão de um medo vago e irresistível, o medo do sono e o medo da cama.
Por volta das dez horas, subo para o meu quarto. Assim que entro, dou duas voltas na chave e fecho os ferrolhos; tenho medo... de quê? Eu não temia nada até agora... abro os armários, olho debaixo da cama; escuto... escuto... o quê? É estranho como um simples mal-estar, talvez um distúrbio na circulação, uma irritação de um nervo, uma leve congestão, uma perturbadora alteração no funcionamento tão imperfeito e delicado da nossa máquina viva, possa transformar o homem mais alegre em um melancólico, e o mais corajoso em um covarde! Então, me deito e espero o sono como se estivesse esperando o algoz. O aguardo com a mesma aflição com que se espera sua chegada; e meu coração bate, minhas pernas tremem; meu corpo inteiro se agita nos lençóis, até o momento em que caio repentinamente no descanso, como se caísse em um abismo de água estagnada. Não o sinto chegar, como antes, esse sono traiçoeiro, que me espreita, que vai me agarrar pela cabeça, me fechar os olhos, me aniquilar.
Durmo — por muito tempo — duas ou três horas — então um sonho — não, um pesadelo me aperta. Sinto claramente que estou deitado e dormindo... sei disso e sinto isso... e também sinto que alguém se aproxima de mim, me olha, me toca, sobe na minha cama, se ajoelha sobre o meu peito, me pega pelo pescoço e aperta... aperta... com toda sua força, para me estrangular.
Eu me debato, preso por essa terrível impotência que nos paralisa nos sonhos; quero gritar, — não posso! — quero me mover, — não posso! — tento, com terríveis esforços, ofegante, me virar, empurrar esse ser que me sufoca e me aperta, — não consigo!
A presença apenas começou a se manifestar. O que ela quer, e o que fará com ele, é o pesadelo que se abre a partir daqui.